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PiorMelhor 
Escrito por João Rocha Labrego   
24-Oct-2007

 

Eu acho interessante o fato de uma pessoa não perceber que são suas crenças que determinam sua qualidade de vida tanto quanto sua conduta social.

Eu, por exemplo, venho de uma família de imigrantes portugueses onde apenas os adultos tinham razão. Às crianças competia obedecer sem retrucar mesmo que não tivessem compreendido direito. O simples fato de apresentar alguma dúvida era visto como retardamento mental ou obediência. De qualquer forma as crianças apanhavam, pois não havia cultura suficiente para se compreender que o simples fato de alguém apresentar sintomas de retardamento mental implicava na necessidade de se consultar um médico.

Oras, o que era mais fácil: Educar ou reprimir? Reprimir é claro. Afinal, era crença vigente na época que se poderia endireitar a sociedade através do uso da violência. Com isso, as pessoas ou optavam por desenvolver uma personalidade covarde e débil ou se revoltavam contra os pais fugindo de casa e se filiando a algum partido comunista. Eu preferi a primeira opção, pois a segunda não me levaria muito longe. Pelo menos, era o que eu entendia na época já que minhas irmãs que fugiam de casa se deram mal.

Enfim, foi um momento muito conturbado na sociedade brasileira. Infelizmente, a “ditadura militar” quis nos proteger dos comunistas mas em compensação, encheu a cabeça do povo de mitos absurdos tratando-os como crianças que precisavam ser conduzidas. Nem sei se eram mitos ou verdades mas não havia um cidadão com a cabeça no lugar que não tivesse medo da vida e do mundo como se o inimigo estivesse em cada esquina pronto a nos abocanhar.

Como a família se comportava de forma violenta com seus filhos e a sociedade aparentemente funcionava como se isso fosse necessário, desenvolveu-se a crença dos atuais adultos de que se não tivessem apanhado de seus pais não teriam virado gente e nem sequer teriam sucesso na vida.

É duro a gente não conseguir elaborar uma idéia melhor a nosso respeito. Acreditar que se demos bem graças àqueles f.d.p.s de nossos pais. Ficar com aquela sensação de eterna dívida para com quem nem sequer nos amou como nós éramos. Apenas, éramos aprovados quando conseguíamos agir neuroticamente como eles. E quando não conseguíamos entendê-los fingíamos que tínhamos entendido para não apanhar.

Nem preciso dizer que os constantes estímulos contraditórios à que éramos submetidos na infância tornou-nos bastante inteligentes mas bastante incapacitados para o convívio social. Felizmente, hoje, existem psicólogos que ajudam as pessoas a recanalizarem suas emoções para aquilo que realmente tem importância para elas.

Por que vocês acham que existem movimentos pró-gay hoje em dia que demoniza os psicólogos que ajudam as pessoas a se libertarem do comportamento homossexual? Por que está na cara que esses indivíduos tiveram problemas com seus pais e que suas emoções foram canalizadas para coisas que não lhes interessavam em certos momentos de suas vidas. Com isso, eles sentiam um grande ódio pelo pai que gerava culpa neles. Através da culpa eles realizavam um esforço titânico para amarem seus pais. Esse esforço que faziam para amar seus pais que era um homem foi se tornando para eles um dever filial e a sensação de culpa que sentiam por sentirem emoções negativas em relação à mão que lhes batia mas que também os alimentava era muito dolorosa.

Essas pessoas não canalizaram suas emoções infantis para se amarem e sim para amarem o pai. Por isso que os filhos oriundos de famílias assim acabam sendo tão contraditórios em suas palavras e em suas ações pois toda a sua energia emocional foi canalizada para gostar daquilo que odeiam. Como odiar lhes causa culpa eles se esforçam para amar aquilo que odeiam com todas as forças de sua alma. Chegam ao ponto de se verem como imprestáveis para justificarem a necessidade de terem apanhado tanto na infância.

Essas origens familiares são facilmente percebidas em pessoas que acreditam que Deus castiga, que a vida é cruel, que a vida vai lhes cobrar um dia pelo que não fizeram, etc. Enfim, o bem é obtido a muito custo mas o mal é rapidinho. Agora me digam: quando esse sujeito conseguirá ser feliz? Nunca. Ele sempre vai culpar a sociedade pelo seu sofrimento mas jamais conseguirá conceber em sua cabeça que o verdadeiro algoz de sua vida foi seu amado e querido pai.

Precisamos, culturalmente falando, desmistificar a figura do pai. Tirar-lhe a fantasia que colocamos nele e vê-lo não como um Deus onipotente mas sim, como a pessoa humana e falha que ele realmente é, da qual podemos gostar ou não gostar.

O filho que assume isso aproveita o convívio familiar para estudar e crescer na vida, sabendo de antemão que ele está investindo em sua emancipação na vida e não servindo muitas vezes a um ditador tirano e cruel. Filhos que se emancipam dessa forma são vistos como maus pois não ficam lambendo botas de ninguém e criam vergonha na cara para lutarem pela sua própria subsistência.
Eu, hoje, faço faculdade e falo para meus colegas que eu chego no serviço na hora que eu quero mas, por coincidência, a hora que eu quero é sempre às 9 horas. E também saio na hora que eu quiser mas também, por coincidência, eu sempre quero sair às 18 horas. Percebem o quanto essa forma de pensar me deixa de bem com a vida? Se eu pensar da maneira de meus pais eu me sinto oprimido e de mal com a vida como se eu não fosse livre e dono de minha própria vida.

Percebem o quanto é importante fazermos uma reciclagem de nossas crenças? Sem isso, a nossa vida fica uma porcaria e passamos a falar mal de Deus e do mundo achando que as pessoas são hipócritas ou desonestas por conseguirem se sentir felizes em um mundo que todos são unânimes em afirmar que é um vale de lágrimas. Será que o mundo é realmente assim ou será que a nossa cabeça é que foi treinada para ver as coisas dessa forma? Nesse caso eu fico com a segunda alternativa.

Nossas crenças passadas nos ajudaram a sentirmo-nos seguros em relação ao mundo e ao possível perigo que o mesmo representava para a nossa integridade física e moral. O problema maior é que não precisamos mais acreditar nisso para sentirmo-nos pois da mesma forma que essas crenças nos protegeram no passado, hoje as mesmas estão infernizando nossas vidas tornando-nos muitas vezes chatos, cruéis e dogmáticos até mesmo para os nossos filhos.

Por enquanto é só pessoal.
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Atualizado em ( 21-Nov-2007 )
 
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