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Auguste Comte Não Tomava Banho criar PDF versão para impressão enviar por e-mail
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Escrito por João Paulo Montandon   
03-Dec-2007
 Tendo uma conversa sociológica com Raymond Aron por meio de seu livro interpretativo sobre As Etapas do Pensamento Sociológico , repentinamente tive no lapso de um espasmo a embriaguez de uma santa impaciência. Não pude hesitar-me a deixá-lo falando sozinho no momento em que sua exposição cativante me apresentava o pensamento filosófico do viking da sociologia.

 

O referido era mesmo um devorador de criancinhas e espoliador de pequenas tribos; implacável na introdução de seu machado de duas faces. Seus objetivos eram destruir e pilhar sempre ansioso a espera de seu próximo botim atroz em algum lugar entre os Bálcãs, de Novogorod a Kiev, e o berço do ocidente como rei Canute, em Essex, ou para onde dessem as águas cristalinas do Oder, Neisse ou do Elba. E tão logo me peguei confuso diante tanta mutilação e por certo inconformado com as palavras de Aron terem afirmado ser este bárbaro um “galo” francês. Mas insistia comigo mesmo convicto e incisivo de ter sido ele um escandinavo brutamontes ou um juto da Dinamarca a velejar em seu trirreme nórdico, rasgando as águas do Báltico ao Mediterrâneo, levando o aviso do terror além-mar que aguardava o velho continente com a chegada das listras rubro brancas.

Foi então que, por um instante, passei a ver Aron começando a ser intransigente ou como se diz por ai, um chato. Contudo, logo recobrei a modéstia percebendo de pronto o equivoco de minha irritação: ao remontar nossa conversa, me lembrei de que a essência envolta na obra gira em torno de um mosaico interpretativo da evolução do pensamento sociológico, iniciada por pensadores que lançaram reflexões acerca das sociedades ao longo de períodos que marcaram do século XIX ao XX, o desejo de refletir sobre a ação social dos homens em sociedade.

Mesmo assim a ressaca daquela embriaguez não havia se dissipado totalmente e ainda estarrecido – ou no jargão popular, “grilado” – dei por encerrada a conversa com Aron e fechei sua obra, acabando por deixá-lo coçando a careca sozinho. Assumo a envergadura quixotesca que deveria ter sido de pronto confinada ao arresto da auto crítica, por isso arco com a grosseria de não tê-lo deixado terminar, mas que me desculpe o autor da prazerosa “Paz e Guerra entre as Nações”, pois não pude conter a veemência e a rispidez que, de fato, não compartilham de uma postura daqueles que são ou desejam ser homens de ciência.

Contudo, muito embora o tal decapitador incendiário realmente não fosse um escandinavo do século VIII (ou pelo menos um cavaleiro teutônico das planícies wagnerianas da Germânia), ainda persistiam os resíduos – que Vilfredo Pareto chamaria de sentimentos constantes impressos na natureza humana – de um destruidor bárbaro a bater os calcanhares ávido por demolição.

De rápida passagem devo discordar, conjuntamente com Aron, de ter sido este viking francês o fundador da ciência da sociologia apenas por ter forjado o termo a fogo e aço. Passei a acreditar ser o “Espírito das Leis” a obra pioneira e Montesquieu o Sócrates da sociologia.

E perante toda aquela carnificina sociológica desprendida por apenas uma única cachola parida na França de Bonaparte, a fulminante ebulição temperamental a que me foi imposta ao espírito realmente não pôde ser evitada. (Cesare Pavese em meu lugar teria se entupido de barbitúricos, mas eu o fiz com maracujina).

Sua mente cataclísmica concebia estorvos que guinavam para rumos que um raciocínio sadio jamais poderia invocar. Sua cúpula mental meditava uma premissa sob a qual estava, basicamente, a bússola de todo seu pensamento destruidor: a humanidade passa necessariamente por três etapas graduais, descobrindo lentamente o mundo que a circunda para finalmente chegar a seu calvário, mas abolindo obrigatoriamente todas as etapas anteriores, pois que não poderiam mais acompanhar a marcha progressiva de seu desígnio – o positivismo. Era o que ele compreendia sobre a lei dos três estados, teológico, metafísico e positivo, baseada numa relação dialética entre uma “estática” da natureza humana e uma “dinâmica” da marcha para o progresso, que permitiria os homens descobrirem as leis positivas num lento processo até alcançarem a verdade plena positivista. O que fosse anterior ao alcance desta verdade tinha de ser queimado, saqueado e destruído.

Calvário é a expressão ideal para ilustrar a construção intelectual deste homem, pois, assim como representa a bíblia, tem-se a impressão de uma alma solitária, sozinha imponente no pico de uma montanha de caveiras, ao atingir o clímax de sua carnificina sociológica: por que o estado positivo teria de incendiar as instituições concebidas pelas etapas precedentes, ou pelo menos grande parte delas? Ele desfere de pronto sua lâmina com algoz: porque o positivismo seria a última e definitiva instância universal do pensamento humano e a crista que faria a História aposentar seu testemunho – pois a verdade dos fatos, dos homens e das sociedades já havia sido por ele dita e escrita. Tudo seria providenciado pelo bárbaro sentado no topo de sua montanha de ossos.

Tudo o que fosse anterior à etapa do pensamento positivismo, ou que conduzisse a ele, não passaria de fenômenos obsoletos prestes a caírem diante daquilo que acreditava ser a única religião a ser pregada e cultuada em seu tempo: a ciência moderna. Ora, se o pensamento positivo, exato e lógico era a luminária da razão e a ponte que conduziria a humanidade para seu êxtase existencial, então a utilidade de tudo o que fosse anterior a esta etapa teria que ser condenado ao enforcamento, pois não poderia mais explicar ou nortear os homens rumo à luz do conhecimento.

A própria política, no tocante à organização do Estado seja sob uma república ou monarquia, não seria mais do que uma velha maneira de organizar uma sociedade que deveria se resumir a uma expressão simples, curta e grossa: a força. Só a força poderia organizar e disciplinar os homens para a sua marcha ao positivismo (isso explica seus modos e porque o Leviatã de Hobbes era seu livro de cabeceira).

Dá-se a entender que ele gostaria de ser um reformulador de seu tempo; queria transformar as instituições da sociedade européia a partir de uma mudança no estado de consciência dos homens em função do racionalismo que pairava na Europa do século XIX: um continente que radiava sabedoria seja por descobertas científicas ou pelo laissez-faire do capitalismo industrial em consolidação. Queria um consenso social único e baseado na razão, para ele positiva. Pensava poder sintetizar as sociedades e a própria História para oferecer uma verdade única, absoluta, imutável e perpétua para toda a humanidade. Mas, ao mesmo tempo, queria destroçar tudo o que fosse anterior ao centro da sua cabeça. E foi assim que no topo de sua montanha se tornou o viking da sociologia. E foi assim que fundou a “sociocracia” absolutista.

Palmas para este degolador implacável; a idéia de querer enxergar pelos olhos de Deus teve grande influência em seu tempo e em lugares remotos como aqui, no sambista Brasil brasileiro: “ordem” para organizar a sociedade a partir do Estado Máximo para, finalmente, trilhar-se os caminhos rumo ao grande desígnio, a marcha para o “progresso”. (O Estado como cafetão institucional para realizar a masturbação progressista; compreensível o gosto positivista dos nossos “pulíticus”).

E lembrando dos assaltos promovidos por alguns bandos desta mesma “sociocracia” absoluta, agiam em conjunto o Pathfinder* Marx, Saint-Simon, Fourier, seu predecessor Condorcet e sua “matemática social” (!) e, já basta por aqui, Émile Durkheim (seu sucessor). Todos totalitários e absolutistas na dita sociologia (teriam sido eles a ensangüentarem a América 500 anos antes de Colombo?).


Resgatando a mitologia nórdica, nem mesmo os vikings de Midgard ou seus deuses de Asgard, Thor, Loki, Odin ou Freyja, teriam sido tão atroadores contra os trolls (forças do caos) de Utgard, no conto do fantástico poema Trymskveda.

Aqui encerra minha catarse; nada mais resta a considerar sobre o predador da sociologia, exceto situá-lo ao tempo que verdadeiramente lhe pertence. Remontando o mosaico social que imperou sobre o velho continente entre os séculos V e XV d.C, mais conhecido como Idade Média, fora o esteio episcopal rigoroso no seio da ordem clerical cristã da Europa, os meios e os modos de vida sobrepostos aos estertores do feudalismo medieval vigente não pairavam apenas em torno de um espectro decadente e mórbido, estendido aos vários estratos sociais compelidos na estagnada relação servil de suserania e vassalagem. Era, de modo geral, a degeneração em vida.


Mas apesar de Aron e uma vasta bibliografia ter me convencido de que o “criador” da sociologia fosse de fato natural da França recém revolucionária, o referido parecia ter tido mesmo uma psique mistificada em torno da literária caricatura de Harald, cabelo belo – o rei que unificou o reino da Noruega por volta de 872 d.C. – e ao mesmo tempo um navegador aventureiro velejando em seu drakkar (barco a vela) pronto para saquear, aterrorizar e pilhar toda a Europa ou onde quer que desembarcasse.

No final, seu frenesi positivista o situava ao lado dos Berserkers (vikings com peles de urso) e Ulfsarks (vikings com peles de lobo), que entravam em fúria assassina ao investirem em combate, seja quem fosse morto, partido pela lâmina pesada de um machado grande de aço, de natureza inofensiva ou não.

Bom, e estando eu certo ou errado quanto à higiene privada na vida medieval, há de se ter a impressão mínima ou pelo menos desconfiar de que Auguste Comte não tomava banho.

 


 * Nota: Pathfinder (guia, em português), filme dirigido este ano (2007) por Marcus Nispel; épico que narra uma lenda deixada por vikings na América, meio milênio antes de Colombo.

 


 

¹ARON, Raymond. As Etapas do Pensamento Sociológico, 6ª ed, São Paulo: Martins Fontes, 2003, Introdução. 

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